" Até onde posso vou deixando o melhor de mim...
Se alguém não viu...
Não me sentiu com o coração."
Clarice Lispector





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sábado, 5 de maio de 2018

CRÔNICA - QUESTÕES




Texto para as questões 1,2 e 3



A Última Crônica



A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer um flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num incidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acentuar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno da mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho — um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.

A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno da mesa um pequeno ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: “parabéns pra você, parabéns pra você…”

Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo, limpa o farelo de bolo que lhe cai no colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. De súbito, dá comigo a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido — vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria a minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

(Fernando Sabino. In: Para gostar de ler. São Paulo: Ática, 1979-1980.)



1.(L.P. Truques e Táticas) Considerando a situação narrada em A última crônica, infere-se que

A)   o texto retrata de maneira crítica a desigualdade social, além disso propõe  ao leitor uma reflexão sobre a condição humana

B)   O narrador desqualifica as personagens ao se referir a elas usando expressões que na época da publicação do texto eram consideradas racistas

C)   A crônica revela aspectos da sociedade vistos com indiferença pelo narrador, o que se percebe com o uso das expressões casal de negros e negrinha.

D)   O narrador não vê beleza na cena descrita, mas sim um momento triste de uma família que não consegui comemorar o aniversário da filha

E)   A alegria da celebração familiar não está acima da divisão entre classes, já que os valores humanos são vistos com indiferença pelo narrador

2 .(L.P. Truques e Táticas) Observando A última crônica de Fernando Sabino, é possível afirmar a respeito dos elementos básicos dessa narrativa que

(A) As pessoas vistas pelo narrador no botequim são apenas personagens secundárias, pois não contribuem para o desfecho da narrativa.

(B) o texto é narrado em terceira pessoa, já que o narrador apenas observa a família no botequim

(C) Não há na narrativa nenhuma referência ao tempo em que ocorre as ações, o que dificulta a compreensão do leitor sobre o enredo da crônica

(D)na crônica prevalece o espaço interior, já que o narrador passa a maior parte da narrativa voltado para as suas inquietações sobre como escrever a sua última crônica

(E) O narrador - personagem é um cronista a procura de assunto para escrever sua última crônica. Esse recurso utilizado no texto de Fernando Sabino chama-se metalinguagem.

(L. P. Truques e Táticas) Sabendo que o texto A última crônica de Fernando Sabino pertence ao gênero crônica, não é correto afirmar que esse gênero textual

(A)  é um texto vinculado essencialmente em jornais e tem como função produzir um relato do cotidiano

(B)  Pode ter caráter humorístico, crítico, satírico ou irônico

(C)  Pode transmitir os contrastes do mundo em que vivemos em tom sério ou humorístico

(D)  Apresenta episódios reais ou fictícios em uma linguagem simples, aproximando oralidade e escrita

(E)  Apresenta uma pluralidade de espaços com personagens complexos e ações realizadas no pretérito

O texto abaixo servirá de referência para responder as questões  4 e 5



A nuvem

– Fico admirado como é que você, morando nesta cidade, consegue escrever uma semana inteira sem reclamar, sem protestar, sem espinafrar! E meu amigo falou da água, telefone, Light em geral, carne, batata, transporte, custo de vida, buracos na rua, etc. etc. etc. Meu amigo está, como dizem as pessoas exageradas, grávido de razões. Mas que posso fazer? Até que tenho reclamado muito isto e aquilo. Mas se eu for ficar rezingando todo dia, estou roubado: quem é que vai aguentar me ler? Acho que o leitor gosta de ver suas queixas no jornal, mas em termos.

Além disso, a verdade não está apenas nos buracos das ruas e outras mazelas. Não é verdade que as amendoeiras neste inverno deram um show luxuoso de folhas vermelhas voando no ar? E ficaria demasiado feio eu confessar que há uma jovem gostando de mim? Ah, bem sei que esses encantamentos de moça por um senhor maduro duram pouco. São caprichos de certa fase. Mas que importa? Esse carinho me faz bem; eu o recebo terna e gravemente; sem melancolia, porque sem ilusão. Ele se irá como veio, leve nuvem solta na brisa, que se tinge um instante de púrpura sobre as cinzas de meu crepúsculo.

E olhem só que tipo de frase estou escrevendo! Tome tenência, velho Braga. Deixe a nuvem, olhe para o chão – e seus tradicionais buracos.

(Rubem Braga, Ai de ti, Copacabana)

4. É correto afirmar que, a partir da crítica que o amigo lhe dirige, o narrador cronista:

a) sente-se obrigado a escrever sobre assuntos exigidos pelo público;
b) reflete sobre a oposição entre literatura e realidade;
c) reflete sobre diversos aspectos da realidade e sua representação na literatura;
d) defende a posição de que a literatura não deve ocupar-se com problemas sociais;
e) sente que deve mudar seus temas, pois sua escrita não está acompanhando os novos tempos.



5. Com relação ao gênero do texto, é correto afirmar que a crônica:

a) parte do assunto cotidiano e acaba por criar reflexões mais amplas;
b) tem como função informar o leitor sobre os problemas cotidianos;
c) apresenta uma linguagem distante da coloquial, afastando o público leitor;
d) tem um modelo fixo, com um diálogo inicial seguido de
argumentação objetiva;
e) consiste na apresentação de situações pouco realistas, em linguagem metafórica.








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